I – A Linguística de Corpus e a tecnologia a serviço da descrição e exploração da linguagem
A Linguística de Corpus, segundo definição de Berber Sardinha, ocupa-se da exploração de corpora, ou conjuntos de dados lingüísticos textuais que foram coletados criteriosamente com o propósito de servirem para a pesquisa de uma língua ou variedade linguística. Como tal, dedica-se à exploração da linguagem através de evidências empíricas, extraídas por meio de computador. A Linguística de Corpus trabalha dentro de um quadro conceitual formado por uma abordagem empirista e uma visão da linguagem enquanto sistema probabilístico, opondo-se, portanto, à visão racionalista, segundo a qual, o conhecimento provém de princípios estabelecidos “a priori”. A tradição racionalista tem como seu maior expoente Noam Chomsky. Do outro lado, Halliday representa a tradição empirista. Halliday vê a linguagem como probabilidade, enquanto Chomsky a enxerga como possibilidade (Kennedy, 1998).
* Corpus: conjunto de textos.
II – A linguagem é padronizada
Para a Linguística de Corpus a linguagem é padronizada (patterned). A padronização se evidencia pela recorrência, isto é, uma colocação ou estrutura, que se repete significativamente, mostra sinais de ser na verdade um padrão lexical ou léxico-gramatical. Para a Linguística de Corpus, a separação entre os níveis do léxico e da gramática é desnecessária, sendo uma questão de conveniência analítica, sem respaldo empírico (Sinclair, 1991) e um dos instrumentos mais utilizados na exploração destes padrões é a concordância.
* Padrão: estrutura ou colocação que se repete significativamente.
III – A análise de Listas de Concordância nos permite descobrir os padrões da língua
A concordância consiste numa listagem dos co-textos (palavras ao redor) nos quais um dado item (palavra isolada, composta, estrutura, etc.) ocorre. A importância da concordância reside no fato de ela colocar diante do pesquisador, professor, ou aluno uma grande quantidade de material autêntico, retirado de um corpus. O material é disposto de maneira a permitir uma melhor visualização dos padrões da palavra-nódulo. O estudo e observação de padrões como colocação, coligação e prosódia semântica ficam então otimizados. (Berber Sardinha, 2000).
IV – Enquanto usuários da língua somos muito menos originais que imaginamos: o princípio idiomático de Sinclair.
Segundo o princípio idiomático (idiom principle), as escolhas lexicais são motivadas pela ocorrência de outros itens lexicais no mesmo ambiente (Sinclair, 1991). Segundo Sinclair (1987, p.320), o usuário de uma língua teria à sua disposição ‘um grande número de frases pré- ou semi-construídas que se constituem em escolhas únicas, muito embora pareçam analisáveis em segmentos. Deste modo, segundo Sinclair, há um espaço comum formado pelo léxico e pela sintaxe, onde ambos são co-selecionados: a escolha de cada item lexical implica na redução das escolhas dos itens lexicais e das categorias gramaticais que podem segui-lo. A escolha de uma classe gramatical reduz a escolha possível de classes gramaticais e de itens lexicais que podem seguir-se a ela. É similar ao que se chama, na Linguística Sistêmico-Funcional, de léxico-gramática. A pesquisa em Linguística de Corpus descreve com precisão as probabilidades de certos itens ocorrerem em co-textos específicos, e, desse modo a separação entre os níveis do léxico e da gramática torna-se desnecessária, sendo uma questão de conveniência analítica, sem respaldo empírico (Sinclair, 1991).
IV – A Abordagem Lexical e o ensino de línguas: princípios fundamentais e tendências atuais
O contexto atual de ensino/aprendizagem de línguas estrangeiras parece caminhar firmemente para uma abordagem humanista que acredita nas potencialidades naturais de aprender do aluno e procura promover a autonomia deste aluno sobre o seu aprendizado através do desenvolvimento de estratégias (Carl Rogers, 1969; Celani, 1984). Nas palavras de Celani, “… os alunos têm de perceber que são grandemente responsáveis pelo sucesso ou fracasso de sua própria aprendizagem” (p.37). Assim, uma das formas de fazer com que o aluno reconheça e perceba a importância do seu papel enquanto aluno/pesquisador seja, talvez, através de situações e atividades que contribuam para o desenvolvimento de estratégias sejam elas pragmáticas, discursivas ou de caráter afetivo.
O papel do professor e do aluno:
Um grande número de pesquisas na área de ensino/aprendizagem de língua estrangeira demonstra que o papel do aluno em relação ao seu aprendizado é muito passivo (Lewis,2000). George Woolard, (Lewis ,2000), defende a idéia de que o professor deva insistentemente promover situações em que o aluno possa apropriar-se de “estratégias de percepção” (“noticing”). Woolard acredita que, se o professor buscar propiciar este tipo de situação, o aluno será capaz de desenvolver determinadas estratégias que o levem a perceber, e, possivelmente, categorizar padrões léxico-gramaticais em contextos reais. Estas situações, baseadas no uso de concordâncias, fará com que o aluno assuma um papel muito mais ativo e significativo no seu aprendizado da língua alvo. Estas considerações refletem uma nova visão de linguagem e de ensino/aprendizagem de línguas.
Abordagem Lexical
- Prioridade ao conteúdo lexical (léxico-gramatical);
- Instrumentalização do aluno em busca de autonomia no processo ensino/aprendizagem;
- Estratégias de aprendizagem: “noticing skills” (habilidade de percepção)
- Ciclo reflexivo: “Observe-Hypothesise-Experiment” (not Present-Practise-Produce);
- Organização do léxico: “lexical notebook”.
Referências bibliográficas
Berber Sardinha, A. P. (2000). Computador, corpus e concordância no ensino de léxico-gramática de língua estrangeira. In V. Leffa (Ed.), *As palavras e sua Companhia – O Léxico na Aprendizagem* (pp. 45-72). Pelotas, RS: EDUCAT / ALAB.
Lewis, M. (Ed.). (1997). Implementing the Lexical Approach.Hove: LTP.
McCarthy, M. e O’Dell, F. (1996). English Vocabulary in Use. Cambridge: Cambridge University Press.
Schmitt, N. e Schmitt, D. (1985). Vocabulary Notebooks: theoretical underpinnings and practical suggestions. ELT Journal 49/12:133-143.
Sinclair, J. (1991). Corpus, Concordance, Collocation. Oxford: Oxford University Press.